Religião e religiosidade qual a diferença?
Definir religião está mais para um serviço árduo do que puxar pela memória conceitos disseminados em muito locais que se conhece. Obviamente não estou esgotando o assunto aqui mas há mais coisas entre o céu e a terra do que apenas a forma de conexão com o Criador. Mas vamos ver que o tempo se encarrega de tudo, sempre.
Interpretar uma palavra é também dizer: qual o sentido dela em um determinado momento. Para a palavra religião há pelo menos três interpretações que vou apresentar, mas olha a estratégia utilizada por Numa Pompílio, segundo Rei de Roma, apresentada por Cícero (106 a.C. - 43 a.C.) em seu livro Da República [1] me pareceu ser de grande valia nesse momento se saber a razão pela qual a religião também já foi (ou está sendo) utilizada. Pompílio realiza uma estratégia para arrefecer a vitalidade de um povo que havia confiado nele a condução para a prosperidade e vendo ele que o povo tinha uma grande paixão pela guerra decidiu que a mudança destes costumes seria fundamental para exercer um bom governo. Dentre tantas outras mudanças "estatuiu por toda parte a religião; quis que nos sacrifícios fossem complicadas as cerimônias e simples as oferendas, exigindo do sacerdócio extensos conhecimentos, sem ostentação, e uma piedade mais própria da observância do que da prescrição dispendiosa." foi ele também que criou outras formas de ocupar aquele povo guerreiro trazendo as distrações, como os jogos e as festas e assim foi por 49 anos que esteve no poder. Políbio (aproximadamente 200 a 118 a.C.) escreveu que em Roma duas coisas foram necessárias como base do apogeu e da duração da Republica: A religião e a demência.
Uma curiosidade sobre a diferença entre a religião romana e os outros povos na apresentação de Maria da Glória Novak [2] ao citar Montesquieu (1689-1755), que em brilhante e severa análise da religião romana, diz ele:
“Vejo esta diferença entre os legisladores romanos e os dos outros povos: os primeiros fizeram a religião para o Estado e os outros o Estado para a religião. [...] Quando os legisladores romanos estabeleceram a religião, não pensaram nem na reforma dos costumes nem em fixar princípios de moral; não queriam incomodar gente que eles ainda não conheciam. Tiveram, pois, inicialmente apenas uma ideia geral, que consistia em inspirar, a um povo que nãotemia nada, o medo aos deuses, e em servir-se desse medo para conduzi-lo ao seu bel-prazer”
Nos tempos de hoje a palavra religião, segundo o dicionário Aurélio é o “Culto prestado à divindade; Doutrina ou crença religiosa; O que é considerado como um dever sagrado; Reverência, respeito; Escrúpulo; Comunidade religiosa que segue a regra do seu fundador ou reformador.” [3] . Antagônicos? Não me atreveria afirmar mas apostaria que esse poderia ser consequência, ou confirmação, daquela estratégia de Numa.
Quanto aos debates sobre a origem da palavra o primeiro, e que por um bom tempo a tradição latina sustentou, foi a definição de Cícero onde afirmava que religião derivaria do verbo "re-légere" o que, em português, teria dado “re+ler” ou “interpretar ao pé da letra" [4] o que por decorrência deste conceito os latinos foram identificados como sendo “aqueles que liam e reliam os Escritos das suas Tradições Sagradas” note a semelhança de estudo de algumas religiões que atualmente utilizam esta forma de estudo incluindo como fundamental “uma cuidadosa reconsideração e profunda concentração da mente em estudo que reclama respeito e reverência.”. Como segundo ponto de debate e já um pouco mais atualizado Lactâncio (250-320 d.C.) afirma que religião procederia do verbo latino re-ligare, "tornar a ligar; amarrar de novo" o que de acordo, com esta ideia conceitua religião como um “religamento” ou “reatamento” com as relações entre o homem e a divindade, relações essas que se supunha terem sido interrompidas em tempo indeterminado. Modernamente, o contemporâneo Norbert Schiffers [5] , teólogo, antropólogo e estudioso das religiões,diz que: “Não pode haver uma abordagem fácil do assunto da religião hoje, acima de tudo, se considerarmos a quintessência do relacionamento de alguém com Deus.”. Para ele a palavra “religião” poderia derivar de Re+eligere (re+eleger ou tornar a eleger) o que introduz uma nova ideia, isto é a ideia de uma “eleição” que é reatada ou “retomada”, o que faz ser possível com que uma pessoa religiosa que se afaste com culpa da divindade, possa retornar a ela mediante conversão.
Em seu blog José dos Montes Hermínios [6] aponta que algumas características são necessárias para a definição de religião, são elas:
1. Apresentar um determinado misticismo e religiosidade, considerando estas duas características como as qualidade dos indivíduos pelas quais se integram no mundo sagrado da sua religião e a prosseguem no seu dia-a-dia;
2. Possuir um determinado conjunto de crenças, práticas e rituais;
3. Possuir um Credo que envolva as suas crenças e doutrinas essenciais que versam: sobre a divindade ou divindades que aceita, propõe e adora, sobre o mundo dos espíritos e sobre a sorte que espera os crentes após a morte;
4. Considerar o aparecimento dessa religião como sendo de inspiração divina;
5. Possuir um Código próprio que envolva, não só as crenças, éticas e tabus, mas também, de certa forma, a ideia sobre o pecado;
6. Basear-se numa Tradição oral, ou/e escrita e numa Autoridade que a interprete legitimamente;
7. Contar com uma Comunidade de crentes, mais ou menos alargada, o que lhe confere o aspecto social e humano.
Para finalizar acredito que os caminhos que José Hermínio nos apresenta sejam os mais próximos e mais atuais que possamos nos apropriar no momento finalizar o seu artigo ao afirmar que o que lhe parece:
“indubitável é que toda e qualquer religião, por um lado, insere, nos seus principais objectivos o de estabelecer um forte relacionamento entre o homem e um Ser (ou vários seres) que considera Superior(es), omnisciente(s) e omnipotente(s) e, portanto, capaz(es) de lhe oferecer(em) o bem-estar na terra e a felicidade suprema num mundo extra-terrestre.”
Com estas informações se tem que religião é bem mais complexo que o conceito “religare” de Lactâncio (e não por Santo Agostinho [7] – Bispo Cristão). O desafio está não apenas naqueles que se reúnem para falar sobre o que acreditam ser seu criador mas sim sobre sua origem e o grau de seriedade dessa reunião criada por falíveis seres humanos.
Religiosidade é a parte fundamental da comunicação entre a pessoa e o que pra si é a divindade ou criador de todas as coisas. Independe de um local, de uma reunião ou de outras pessoas. Em seu artigo sobre a diferença entre religião e religiosidade, Magali Bishoff [8] afirma que:
“A decisão de nos distanciar da religião que cega, oprime e conduz o Homem à ignorância deve prevalecer nos homens em que a razão é desenvolvida. O que não podemos jamais esquecer é que o sentimento de 'religiosidade' não deve se afastar da prática na vida do homem, pois se isso acontecer, ele perde a noção de quem é, do que está fazendo aqui e todos os seus valores desaparecem com seus atos, torna-o 'des-Humano'.”
Afirma ela que tanto a religiosidade e a religião são práticas que não devem ser misturadas.
“A primeira independe da segunda, e a segunda lamentavelmente pode também ser encontrada divorciada da primeira. Religião é sempre instituição, acordo social, edifício teórico, organização hierárquica, atividade política. religiosidade é o sentimento maior (inato), a fé praticada, a posição mais íntima, a intuição do mistério.”
Vimos que a religião, em sua origem latina, foi construída para facilitar a gestão do astuto rei Pompílio, cujo desejo era o de amortecer um povo. Com o passar do tempo a conceituação da palavra (ou o ajuste para consentir o que o Rei havia feito) faz com que existisse um movimento externo (portanto exotérico [9] ) que buscasse reunir pessoas para compreender melhor a forma de conexão com o que acreditavam ser uma divindade ou o seu criador. No particular, na religiosidade, todos nós somos alunos, os buscadores destes conceitos onde teremos uma versão, um norte, sobre os fatos ali apresentados mas que estará longe da forma ideal de ensinar como aquela pessoa irá estudar, compreender e exercitar o que lhe foi apresentado individualmente. O autodidata, por exemplo, que não precisa de uma instituição para viver seu aprendizado, ele está seguro que segue o que é o melhor pra si naquele momento e que pode exercer a prática com seus estudos. A religiosidade se compara ao estudante e ao autodidata que tratam da experiência e do próprio desenvolvimento pessoal com aquilo que acredita ser o melhor pra si naquele momento. E se há a crença de que o Criador está dentro nós então a religiosidade ou a fé bastará por si só para prover o equilíbrio espirtual necessário àquele que busca mais do que palavras.
1 Link em Marco Túlio Cícero, p25
2 Advinhação, superstição e religião no ultimo seculo da republica, NOVAK, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciencias Humanas, USP; 1991
3 Link em Religião
4 Marco Túlio Cícero (106-43 a. C.)
5 Link em Norbert Schiffers
6 Link em Definição de religião
7 Agostino de Hipona (354-430 d.C.).Bispo Cristão.
8 Link em A diferenca entre religiao e religiosidade
9 Diz-se dos ensinamentos e doutrinas que, nas escolas da Antiguidade grega, eram transmitidos em público.
Parece que esse Elias eu conheço!heheheh adoreii e me deu fome inclusive os sanduíches..rico em detalhes e reflexões!!siga meu amigoo ameii
ResponderExcluirGratidão Janine pelas palavras. A receita fo sanduba está feita. Só espalhar a notícia. 😍🙌
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