Os presentes da CoVid-19

O que está acontecendo de novo por aqui?

Falei muitas vezes e continuo a repetir, a CoVid-19 trouxe muitas coisas e dentro do pacote fica-em-casa-e-usa-a-máscara fez com que, na pior das hipóteses, estivéssemos mais perto do autoconhecimento. Uns podem até dizer: insuportavelmente perto demais Júlio Cesar. Mas é essa a ideia boa da coisa, o que me inspira não são as borboletas que vieram (todas) dos casulos e se transformaram e sim aquela parte do processo em que fazem força para ter asas mais fortes ao forçar a saída do casulo para depois poder voar e depois brincar de pousar no nariz dos cachorros o que me permite comparar com as pessoas que se descobriram irritadiços e/ou solitários por não buscarem se entender e mudar e não estão percebendo a grande oportunidade de evolução deixando o silêncio ensurdecedor do quem eu fui e de quem eu sou vencê-los a cada dia que passa. Faz tempo que plantei minhas árvores – tenho uma primavera que plantei num vaso e resistiu bravamente até chegar o dia em que foi transplantada para a terra, tenho três lindos filhos e agora foi a vez de escrever o livro que se chama A Invasão que fala sobre a pretensão interior de fugir de um lugar, das coisas que se faz para invadir um novo mundo e experienciar as novas oportunidades, mas as vezes – sempre -  ajudamos a borboleta interior a sair do casulo antes da hora e ela fica sem participar de todo o seu processo de transformação e o novo lugar não fica tão lindo quanto nos sonhos, apenas irá confirmar que os problemas pertencem a própria pessoa e não ao lugar. Logo abaixo compartilho com meus amigos uma parte do primeiro capítulo para conversarmos um pouco sobre o assunto. Espero que gostem.

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Eram 8h25min e faltando apenas 4 dias para o Natal de 2016 recebe o chamado de uma senhora que estava no cemitério da Zona Sul da cidade.

- Vai dar perto de R$1,10 por quilômetro, vamos lá ver o que acontece... terça é terça.

Pouco tempo depois chega ao local e avalia o ambiente e as possíveis pessoas que poderiam ser a sua passageira.

- Muitos carros, pelo jeito a pessoa era bem conhecida, amigos com carros bonitos, acho que fiz uma boa escolha. E ao encontrá-la diz pra si: “Olha só! Aqui está você.”

Estacionou o carro, destravou as portas, abriu a porta traseira direita e ficou esperando.

- Bom dia Sra. Catarina, seja bem vinda.

Silenciosa, ela entrou e solicitou a confirmação do nome do motorista, elogiou o cheiro do carro e disse que tinha uma inclusão a fazer no trajeto.

- A senhora poderia incluir este novo endereço no aplicativo?

- Sim, claro!

Era para outro cemitério só que de uma cidade da região metropolitana. Ela não questionou a alteração do valor e seguiram por 20 e poucos minutos em silêncio, apenas a música vinda do pendrive fazia som no carro. Pouco depois chegaram ao primeiro destino, um rapaz já a esperava na rua para pegar os documentos de uma sugestão de projeto que eles iriam terceirizar.

- Grato meu caro. Agradeça ao Márcio pelo aceite e que espero a avaliação dele até sexta ao final da tarde.

- Sim senhora Catarina, tenha um bom dia!

Seguiram em direção a cidade vizinha. Ela não tinha mais do que 70 anos a cor de seu cabelo era castanho entre o claro e o escuro, provavelmente com algum daqueles números para ter um tom diferenciado e que se dependesse dele nunca iria identificar qual seria, mas era uma mistura que falava de bom gosto, personalidade e estilo. Aliás estilo é o que não faltava nela. Não mais de 1,70m, magra e dois celulares que não a deixava em paz. Após uns 30 minutos ela inicia por falar do seu momento.

- Desculpe pelo silêncio Sr. Elias, como você já sabe meu nome é Catarina e estava no sepultamento de um aluno e amigo que estava bem doente havia uns 3 anos, era câncer na próstata, tinha apenas 46 anos, um menino. E agora vou a um enterro, de outro amigo e colega, suicídio, tinha 74 anos.

Elias escutou até confirmar o silêncio e disse:

- O velar e o sepultar não são momentos fáceis, mas necessários.

Ela apenas concordou baixando a cabeça. Depois de outras conversas sobre a morte ela continuou:

- Gostei de sua playlist, bem eclética, clássicas alegres, MPB, blues, até kirtan (É o mantra que possui várias notas musicais, várias palavras e possui tradução) tem Elias. E falando em kirtan, não sei a sua crença, mas se me permite, qual a sua opinião sobre o destino da pessoa após a morte? Qual a necessidade de tanto sofrimento e dor sendo que para alguns até há o desespero?

Ficou em silêncio pensando qual seria o motivo de tanta pergunta? Por um tempo ínfimo olhou para ela, para ter uma melhor ideia sobre como estava a sua expressão após essas perguntas e se arriscou a falar sobre um assunto tão delicado para o momento.

Bem dona Catarina são muitas perguntas e não sei até onde poderia lhe ajudar mas vou repassar o que penso sobre isso, pode ser?

- Sim, é isso mesmo que quero, te agradeço.

- Qual a minha opinião sobre o destino dos mortos:  Pra mim uma pessoa está dividida em duas partes, a que vai para algum lugar e a outra que  volta ao pó, como qualquer ser vivo da natureza.

- Pois é, eu já aceito mais que o corpo e a pessoa são uma coisa só e vão para um lugar a espera de um julgamento justo pelos seus atos.

Por alguns segundos Elias entendeu que havia começado mal e até pensou que naquele momento a conversa havia terminado. Na maioria das vezes a expressão "a espera de um julgamento" diz a ele que a conversa fica unilateral. Por prudência esperou.

- Mas continue, minha convicção eu já sei, é a sua que eu quero conhecer.

- Grato dona Catarina – acenando afirmativamente com a cabeça. Eu entendo sua argumentação e algumas religiões acreditam em pequenas mudanças entre esse entendimento, há outras que não consideram nem que haja a mínima dúvida: haverá a ressureição da carne e ponto. Mas pelo que entendi aqui o importante é trocarmos uma ideia não é? Lembrei-me agora do lindo poema "A morte não é nada" de Santo Agostinho que em uma das partes diz "Vocês continuam vivendo no mundo das criaturas, eu estou vivendo no mundo do criador" é uma afirmação muito bonita vinda de um homem santo não é?

- Sim, concordo com suas perguntas.

Respondeu Catarina olhando para fora do carro, num olhar vago e distante. Elias tinha certeza que foi nesse dia que criou uma metáfora para explicar como entendia a estrutura espiritual do ser humano. Acreditava ele ser uma forma mais fácil de explicar para aqueles passageiros que não estavam acostumados a uma visão mais espiritualista. Prosseguiu:

- Vou lhe dar um exemplo, naquilo que não ficar claro a senhora pode interromper, Certo?

- Sim, siga em frente e fique à vontade.

- Esse carro, por exemplo, tem bancos de couro, vidros elétricos, direção elétrica, é automático, um motor 2.0 com quase 30.000 km, cor branca, ar condicionado, vidros com película, pneus novos, lataria impecável, o equipamento de som é original de fábrica e para cada um destes itens e outros mais tem um profissional especialista que cuida dele. O eletricista não cuida da suspensão e nem o profissional que faz a regulagem eletrônica cuida do arrefecimento. Há muitos especialistas que se ocupam da manutenção e saúde do veículo e tem alguns que são tão específicos que cuidam de umas marcas, mas não sabem de outra.

- Sim, reconheço isso. Certa vez meu carro estragou e chamei meu (ex) mecânico, ele não sabia mexer naquele carro por ser importado.

- Entendo. Sem rivalizar profissões, mas a função dos mecânicos responsáveis pela regulagem eletrônica, por exemplo, seriam como os médicos cardiologistas em relação à saúde do nosso coração eles cuidam da parte física, daquilo que se pode ver. Já em relação ao motorista do carro, aquele que dirige, troca às marchas, coordena as ultrapassagens, o respeitar ou não da lei e cuida da parte pensante do conjunto – vou chamar aqui de espírito - é cuidado pela psicologia que fica limitada na relação entre o motorista e o carro que ele dirige hoje. Agora, para dar atenção e falar especificamente da relação do motorista com outros veículos que ele já teve e das suas experiências fora do carro, como quando vai a um supermercado ou chega em casa, quem dá a atenção a estes questionamentos é o terapeuta complementar (alguns preferem holístico por entender que todos se completam mas cada um tem sua forma de ver diferente do outro) e, finalmente, para tratar daqueles que não tem mais carro apenas os espiritualistas - pessoas que admitem que é possível falar com os mortos – afirmam que podem fazer alguma coisa para auxiliar ou receber orientações daqueles que estão sem locomoção “normal” nas ruas.

- Chegaremos ao cemitério em três minutos dona Catarina. 

- Está bem, me aguarde no estacionamento por favor, dentro de uns 30 minutos volto e seguimos viagem para meu escritório.

- Não tenho o retorno cadastrado, poderia inclui-lo?

- Sim claro!

Elias começou a observar a área do cemitério, era um parque amplo e muito gramado, agradável, com algumas árvores de grande porte e outras frutíferas – laranja, manga, ameixa,... - que conseguiam transmitir aquela paz quando se chega em casa depois de um dia exaustivo. Saiu do carro, olhou de forma mais ampla e ficou encantado com tudo aquilo. Respirou fundo e foi em direção a cafeteria que era um lugar comum a todos os visitantes. Ao chegar viu que quase toda tinha como paredes grandes vidros limpos e transparentes com apenas duas linhas paralelas para os desavisados, cada linha tinha perto de 8 cm largura e combinavam bem – cinza e laranja, no seu amplo interior 4 cadeiras confortáveis para cada mesa de madeira. Na entrada, a direita, pegou alguns folders de apresentação, para ir passando o tempo, eram muito bem apresentados e de muito bom gosto também. O maior deles havia as opções de sepultamento, enterro ou cremação onde também incluíam o conforto e requinte abrangendo do início ao fim do rito para o falecido e para os familiares.

- Mas que belo mercado não?

Elias ficou bastante impressionado, ali realmente não parecia em nada com aquele local que se deixa um amigo ou familiar ao relento até chegar o momento do juízo final. Lendo o próximo folder, seguiu em direção ao balcão onde pediu para mocinha que estava ali um café preto.

- Bom dia! O senhor pode esperar à mesa que o garçom logo vai lhe atender.

- Grato.

Sentou de frente para a janela para continuar a sentir mais um pouco daquela paz que foi quebrada apenas quando o garçom chegou educado e silenciosamente.

- Bom dia senhor! Meu nome é Jonas. Em que podemos servi-lo?

- Bom dia Jonas! Poderias me trazer um café preto?

- Claro! Algo para comer? Jonas mantinha sempre o mesmo tom na fala, mas conseguia não deixar monótona a apresentação.

- Não, te agradeço. Minha fome não está assim tão grande.

- Apenas para lhe informar, esta é a lista de ingredientes que o senhor pode montar o seu sanduíche, se preferir e montar o lanche ao seu gosto e fique à vontade.

Elias olhou para Jonas e pensou que assim ficaria difícil ele chegar ao peso das tabelas, certamente que aquele jovem rapaz não deveria ter dito aquilo. Tentou encontrar o local onde poderia estar sua passageira, eram quase 10 horas, avaliou a situação e não resistiu e fez um pedido quase que inalcançável para o local:

- OK meu amigo, te entendi, faça assim então: Dê-me dois sanduíches sendo um com pão francês crocante, sem prensar, peito de peru, queijo Minas, tomate, alface, um ovo cozido em fatias e o outro esse (falou apontando) com pão sírio, peito de peru e um omelete com cebolas bem cortadas, tomate picados e queijo mussarela, para levar.. e sobre o café, poderias colocar numa xícara maior, por favor. O que você acha?

- Acho que para quem só queria um café, o senhor está é com fome. Sorriu levemente Jonas, confirmando que logo estaria com o pedido.

- É impressionante o quanto incentiva a excelência de um bom ambiente e atendimento a se fazer algo que nem se pensou, não é mesmo? Pensou Elias.

Em menos de quinze minutos os sanduíches já estavam ali. Tudo perfeito, se pudesse pedia mais um, mas deixou deixar pra lá, o tempo é curto. Com o segundo sanduíche bem embalado voltou ao carro, lentamente como manda o protocolo da pessoa satisfeita.

Passaram-se dez minutos e Catarina, acompanhada por um casal, caminhava, lentamente, em direção a um pequeno trevo para pedestres, se despedem e ela segue cabisbaixa e solitariamente em direção ao carro, fica um pouco em silêncio fora do carro, entra e agradece a espera enquanto Elias silenciosamente também agradece a possibilidade de fazer aquele lanche dos deuses.

- Elias preciso ficar em silêncio um pouco, quem sabe até descansar. Poderias me confirmar se o endereço final está correto?

- Rua Louis Pasteur, 148 – Bairro da Barra, São Sebastião do Sul.

- Isso! Tenho um trabalho a fazer amanhã em Barra d'Ouro e gostaria de saber se você pode me levar até lá hoje, assim terminamos nossa conversa. Pode ser?

- Claro!

- Grata...

Ao final da corrida, em frente a uma belíssima casa de dois pisos, sem cerca, com um jardim com muita grama e sem aquele exagero de plantas ornamentais Catarina pagou um valor a mais pela espera e alcançou seu cartão combinando o horário das 13h30min. Barra D'Ouro ficava, mais ou menos a 450 km da casa dela, seria uma viagem de pouco mais de 6 horas, este foi o dia que Elias sentiu que o final de ano seria muito positivo pra ele.

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Comentários

  1. Já quero a continuação. Muito boa história. Sucesso Júlio

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    1. Gratidão pelo comentário Glau. Logo trarei novos capítulos :D

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  2. Amei tuas palavras texto de fácil compreensão e muita reflexão ... aguardando a continuação

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    1. Gratidão Andrea pelo teu comentário. Essa é a alma do projeto: reflexão e leveza.

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  3. Adorei Júlio... Aguardando a sequência...

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    1. Gratidão Lúcia pelas palavras, logo novos capítulos. 😊🙌

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